
O Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (SinMed/RJ) formalizará uma denúncia junto ao Ministério Público Federal (MPF) para tentar frear o processo de sucateamento e desmonte técnico que atinge os serviços de alta complexidade no estado. Diante da descentralização das unidades federais iniciada em outubro de 2024, a entidade segue monitorando o cenário de abandono deliberado que coloca em risco não apenas a segurança do ato médico, mas a vida de milhares de pacientes. Unidades históricas como os hospitais de Bonsucesso (HGB), Andaraí e Cardoso Fontes permanecem no centro de uma crise gerencial que prioriza metas numéricas de baixa complexidade em detrimento do atendimento especializado, vocação natural dessas instituições.
No Hospital Federal de Bonsucesso, a situação continua alarmante: a falta de insumos básicos e de pessoal qualificado, especialmente anestesistas e médicos de emergência contratados via PJ, pode aprofundar a queda no número de transplantes renais — que já recuaram de uma média de 130 para apenas 107 no último ano por falta de material. Além disso, o sindicato pretende denunciar a realização de “mutirões de fachada”, onde hospitais de alta complexidade são utilizados para procedimentos simples, como vasectomias e cirurgias de fimose, enquanto pacientes com miomas graves e hemorragias seguem aguardando sem assistência. Na oncologia, o descaso é o foco principal: o serviço clínico em Bonsucesso, desativado desde 2019, força ainda mais pacientes operados a retornarem para a fila do SISREG, o que configura um descumprimento frontal da Lei dos 60 Dias.
O SinMed/RJ também busca alertar para o esvaziamento técnico das equipes. Médicos especialistas com décadas de experiência estão sendo substituídos por profissionais recém-formados ou contratos precários, sem o treinamento necessário para lidar com patologias complexas, como a hipertensão pulmonar primária. Essa política de gestão compromete diretamente a formação dos médicos residentes e a continuidade de tratamentos em áreas como nefrologia e patologia, onde exames de biópsia oncológica poderão sofrer novos atrasos. O sindicato vai pedir que o MPF intervenha imediatamente para garantir a manutenção da infraestrutura — como a subestação elétrica de Bonsucesso, nunca concluída — e a preservação da dignidade profissional da categoria médica.