Entidade aponta intensificação de medidas punitivas contra profissionais que questionam condições de trabalho; novo relato de agente comunitária expõe pressões e adoecimento no exercício da função
O Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (SinMed/RJ) destaca denúncia contra a Secretaria Municipal de Saúde (SMS-RJ), apontando que a prática de perseguições e assédio moral tem se tornado constante nas unidades da rede. Segundo a entidade, o aumento da precariedade na saúde pública tem gerado uma reação proporcional da administração, que intensificaria medidas punitivas à medida que os trabalhadores se mobilizam para cobrar melhorias.
Entre os casos citados pelo sindicato como exemplos dessa postura estão a demissão do médico Gustavo Treistman — decisão posteriormente revertida —, o assédio judicial sofrido pelo diretor do SinMed/RJ, Pedro Varjão, além de transferências imotivadas e o desligamento de profissionais que participaram de movimentos grevistas. O sindicato reafirma que manterá a postura de denúncia para combater o que classifica como uma “prática nefasta” de gestão.
O episódio mais recente dessa cronologia envolve a Agente Comunitária de Saúde (ACS) Livian Merlino. Qualificada com curso técnico concluído em 2023 e com anos de experiência na função, a profissional foi surpreendida com uma demissão no dia 16 de junho de 2025. O desligamento ocorreu apesar de Livian apresentar um histórico de cumprimento de metas e bom desempenho, conforme teria admitido sua própria gerência direta em uma Clínica da Família.
Em depoimento, a agente detalha a perplexidade diante do desligamento. Segundo Livian, ao questionar o setor de Recursos Humanos sobre o motivo da dispensa, a justificativa apresentada foi a de que ela não possuía o “comportamental” buscado pela empresa para a função de ACS. No entanto, o próprio RH teria confirmado a ausência de histórico negativo ou advertências registradas, admitindo inclusive que a gerência da unidade não havia sido consultada sobre a decisão.

Agente Comunitária de Saúde (ACS), Livian Merlino. (Foto: reprodução)
O relato da profissional expõe uma realidade de adoecimento atrelado à rotina de trabalho. Livian afirma ter desenvolvido quadros de depressão profunda, crises de ansiedade, síndrome do pânico, burnout e fobia social, além de problemas físicos como hérnia na coluna e lesões nas articulações, todos adquiridos durante sua jornada como agente. Um dos momentos críticos narrados ocorreu em 2023, quando a profissional sofreu uma convulsão e uma queda dentro da unidade enquanto lançava dados no sistema. De acordo com a agente, embora tenha ficado sob cuidados médicos por três dias, a empresa não chegou a abrir a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT).
A pressão laboral teria se acentuado após 2023, ano em que a unidade em que trabalhava foi alvo de denúncias por assédio e desvio de função. A partir de então, ordens para redução de horários de almoço e um esforço redobrado para bater metas em escalas internas e visitas domiciliares passaram a ser a norma. “Minha rotina mudou completamente porque a pressão no trabalho aumentava a cada dia”, relata a profissional, que agora enfrenta dificuldades financeiras para dar continuidade aos tratamentos de saúde dos quais depende.
“Infelizmente, após a demissão, por falta de recurso financeiro, interrompi meus tratamentos e dependo do SUS para algumas medicações. Outras o SUS não oferece”, desabafou Livian.
Para o SinMed/RJ, o caso de Livian Merlino explicita uma política de gestão que prioriza o silenciamento de vozes críticas em detrimento do bem-estar dos servidores e da qualidade do atendimento à população.