Em assembleia lotada liderada pelo SinMed/RJ, categoria denuncia monitoramento por câmeras, contratações irregulares para furar a greve e ameaças de demissão; novo modelo de paralisação foca na qualidade do atendimento e no enfrentamento à burocracia.
RIO DE JANEIRO – Mais de 100 médicos da Atenção Primária à Saúde (APS) do Rio de Janeiro se reuniram em assembleia extraordinária convocada pelo Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (SinMed/RJ) nesta quinta-feira, 2 de abril de 2026. O encontro, que contou com a presença do presidente do sindicato, Alexandre Telles, e dos diretores Pedro Varjão, Gustavo Treistman, Camilla Moura e Milton Santos, selou a continuidade da greve iniciada em 2 de março de 2026. A decisão soberana da categoria foi pela manutenção do movimento, agora em um modelo 100% presencial com restrições importantes, visando tanto a segurança dos profissionais quanto a denúncia do sucateamento do Sistema Único de Saúde (SUS) no município.

O novo modelo da greve: 100% presencial e com foco na qualidade
A partir de agora, a greve assume um caráter de resistência técnica e ética dentro das unidades. O modelo aprovado prevê que todos os médicos estejam presentes em seus postos, mas sob diretrizes rígidas de mobilização:
Atendimento humanizado: Os profissionais passarão a atender apenas um paciente a cada 30 minutos (máximo de dois por hora). O objetivo é garantir a segurança do ato médico e evidenciar que o ritmo imposto pela gestão municipal impossibilita um cuidado adequado.
Triagem médica obrigatória: A triagem dos pacientes será realizada diretamente pelos médicos, retirando essa função administrativa de quem não possui competência técnica para avaliar urgências durante a paralisação.
Boicote à burocracia: Os médicos se recusarão a realizar tarefas burocráticas que sobrecarregam a agenda, como inserções no SISREG para atenção secundária ou transcrições de pedidos de exames vindos de outros níveis de atenção. “Nenhum tipo de trabalho burocrático fora da consulta será realizado. Se o paciente precisa transcrever um exame, que marque a consulta e faremos isso dentro do tempo adequado”, pontuou um dos presentes.
Mobilização territorial: Parte do tempo será dedicada a atividades de “sala de espera” e conversas com a comunidade para explicar os motivos da greve.
Um dos encaminhamentos solicitados durante a assembleia foi de formalizar, no ofício que será enviado à Prefeitura e às OSs, uma exigência inegociável: a garantia de estabilidade de pelo menos um ano para todos os médicos grevistas. “Não aceitaremos que, após o fim do movimento, a gestão inicie uma caça às bruxas para demitir quem teve a coragem de levantar a voz”, pontuou a diretoria. Essa medida visa proteger os profissionais contra a perseguição que já se faz presente no cotidiano das Clínicas da Família.
Relatos de terror: assédio, câmeras e perseguição
A assembleia foi marcada por depoimentos sérios que desenham um cenário de perseguição institucional por parte das Coordenações de Área de Planejamento (CAPs) e das Organizações Sociais (OSs). Médicos relataram que estão sendo vigiados por câmeras de segurança para impedir que falem com pacientes sobre a greve. “A CAP usava as câmeras da rampa para vigiar quem estava acolhendo os pacientes e mandava o gestor nos retirar de lá imediatamente”, denunciou uma médica.
Outro relato grave envolve a contratação de “médicos extras” para unidades que já possuem quadro completo, em uma tentativa clara de esvaziar o movimento grevista e substituir os profissionais mobilizados. Há também denúncias de ameaças de demissão em massa pós-greve, feitas abertamente por coordenadores em reuniões de unidade.
O presidente Alexandre Telles criticou a gestão municipal: “A atenção primária no Rio virou uma máquina de eleição e propaganda política, uma máquina assediadora e precarizadora que prioriza números em detrimento da saúde real”.
Depoimento comovente
Um dos momentos mais emocionantes e revoltantes da assembleia ocorreu durante o depoimento de uma médica que simbolizou a vulnerabilidade da categoria. Ela relatou ter sido agredida fisicamente por um paciente durante o exercício de sua função. Em vez de receber o suporte jurídico e psicológico esperado, a profissional foi vítima de uma “segunda agressão” institucional: a OS responsável pela unidade a obrigou a assinar um documento de transferência alegando que o pedido partia da própria médica. O documento continha cláusulas que isentavam a Organização Social de qualquer responsabilidade pelo ocorrido, silenciando a falta de segurança no local de trabalho sob pena de sanções administrativas. O relato causou comoção e corroborou o que os presentes chamaram de “gestão pelo medo”.
O sindicato também instruiu os profissionais a:
Próximos Passos
A categoria aprovou a realização de uma nova assembleia em 15 dias, no dia 17 de abril, para avaliar os impactos do novo modelo e a resposta da prefeitura às pautas de recomposição salarial, pagamento da V3 e estabilidade para os grevistas. “Se não houver avanço nas negociações, o movimento pode se radicalizar ainda mais”, alertou a diretoria ao encerrar a sessão sob aplausos de “coragem”.
Acesse o ofício: